LEMBRANÇAS DA TERRA ARDENTE


Sinopse

O jantar havia terminado e o fabuloso anoitecer africano já se anunciava. A lâmpada, suspensa do tejadilho, tremeluzia confusa, sem saber se ainda era dia ou se já começara a noite. A lancha permanecia quieta e as amarras estavam folgadas, confiando na brandura do mar. No areal, as palmeiras recortavam-se em silhueta no azul dourado de um Atlântico, também ele testemunha intemporal da audácia de um povo descendente dos lusitanos, e um retardatário bando de pássaros voava, pesado, rumo ao recolhimento nocturno. Bubaque, àquela hora, aconchegava-se, embalada pela temperatura agradável do crepúsculo africano.

No pequeno cais, um grupo de crianças esfomeadas esperava, envergonhado, pela ordem de entrar a bordo, para vasculhar, na mesa, a refeição confeccionada com os sobejos, rejeitados mais por causa dos nossos olhos e menos do que pela nossa barriga. Estrategicamente, deixei de lado uns pedaços de carne e esparguete intocados, não para lhes amenizar a fome mas para acalmar a minha consciência, incomodada com a presença daqueles pequenos em luta desesperada pela sobrevivência. Agora teriam de desenhar o seu destino. Responsabilidade imensa essa de construir o futuro. Sabê-lo-iam? As convicções pelas quais os seus pais se bateram com denodo diziam-me que sim. Mas uma coisa é lutar contra o domínio colonial e outra é domesticar os tempos vindouros.

Porém, naquele dia, não me pareceu que estivessem em condições de lutar pelo que quer que fosse, a não ser por um pedaço de gordura cuidadosamente separada do que foi o nobre e suculento naco de carne, acompanhado pela garfada do plebeu esparguete, condimento que, amarga ironia, sobrava sempre no balde dos restos.

Terminada a refeição, viemos estender-nos no areal morno de Bubaque.

– Podem entrar, seus macaquinhos.

Aqueles pequenos, esmagados pela crueza da guerra, invadiram a coberta como animaizinhos e, num ápice, devoraram as migalhas que resistiram à nossa gula. Depois, como que por encanto, desapareceram.

– Quando nos formos embora, não sei como vão estes putos conseguir enganar a fome – comentei, lançando o olhar para o último miúdo, o mais pequeno, que corria, desesperado, tentando alcançar os outros.

– Isso é problema deles, Zé. Não queriam a liberdade?

Não me incomodou a resposta nem a falta de humanidade. Já estava imune. Na minha cabeça corriam outros pensamentos.

– Vou escrever um livro sobre nós.

– Vais o quê?

– Escrever um livro. Um livro que fale de nós, desta gente e desta terra.

– Tu? Escrever um livro? Alguém acredita nisso?

– Achas que não sou capaz?

– Acho!

– Pois prometo que hei-de escrever um livro sobre a nossa vida nesta terra. Nem que seja a última coisa que faça.

– Está-se mesmo a ver! E quando vais escrevê-lo?

– Quando ele quiser. Daqui a um mês ou daqui a um ano ou daqui a muitos anos. Sei lá!

– Estás a dizer-nos que esse tal livro é que vai contar-te quando deve ser escrito?

– É isso mesmo! Será ele que estabelecerá o tempo ideal para nascer.

– Não percebo!

– Nem nunca perceberás. Deixa lá! Ficas com a garantia de que será escrito. Contenta-te com a minha promessa.

– No Dia de São Nunca vou ter o meu nome num livro que tu nunca irás escrever. Vou gostar de ler…

– Se ele vier a escrever alguma coisa, não quero que ele ponha lá o meu!

– Achas que esse livro não merece o teu nome?

– Não é isso! Só que não gosto que toda a gente venha a saber das cenas tristes que por cá passei…

– Tens razão. Não vou escrever os vossos nomes no meu livro. Invento-os. «Serra», por exemplo. Serve-te?

– Serve! Por acaso, gosto do nome «Serra», podes usá-lo.

– E tu? Que nome queres que use?

– Eu? Sei lá! Inventa um.

– Queres ser o «Lopes»?

– Lopes soa-me bem.

– Eu quero ser o Cascais, que é o nome da minha terra.

– E eu quero ser o Palmela. Qual vais usar para ti?

– Eu não me incomodo com isso. Afinal, sou o autor e o único responsável pelo que escrever. Acham que fazia sentido inventar um nome para mim?

– Realmente, não faz sentido. Malta! Este jogo é giro. E que nome vais dar ao patrão?

– Se fosse eu, chamava-lhe mesmo «patrão», que é o que ele é, na realidade.

– Não, Palmela! Não lhe vou chamar patrão. Além disso eu trato-o por «chefe». Vou ter de lhe arranjar um nome. Chefe! Importa-se de ser o cabo Lourenço, patrão da LDM15?

Não me importo nada, Zé! Quer parecer-me que não vais escrever coisa alguma.

– Vocês estão a gozar com o meu orgulho. Fiquem sabendo que um dia hei-de aparecer com o livro escrito. Custe o que me custar. Até vão cair para o lado…

– Zé! E que nome me vais dar?

– A ti?! Tu és preto e preto não entra nos livros dele.

– Entra sim senhor, Cascais. O Fernando tem o mesmo direito que vós. Que nome queres que eu use?

– Escreve lá no livro que eu sou o Fernando Sá!

– Esse é o teu nome verdadeiro. Queres mesmo que o use?

– Quero!

– Então vais ser o Fernando. Ao menos tu acreditas que vou escrever o livro, não acreditas?

– Acredito, sim. Tenho a certeza de que vais escrevê-lo.

– Sendo assim, vou buscar um papel para apontar os vossos nomes falsos. Vou ter de inventar também outros nomes para os navios, senão, não adianta nada esconder os vossos.

– Sabes o que te digo, Cascais. O gajo é de paranóias! Sabe-se lá! Um dia dá-lhe na carola e desata a escrever…

– Acreditas, Palmela? Eu acho que… lá para o ano 2000!

– Já não falta muito. Apenas alguns anos… nem vamos dar por eles. A propósito, Zé: vais usar aquelas palavras de cinco c’roas do tipo «fulvos», «coriáceos» e outras assim?

– Vês como foi benéfico leres umas páginas daquele livro? Não te esqueceste dessas palavras. Que pena não o teres lido todo. Mas fica tranquilo que vou usar o vosso vocabulário, excepto, claro, aqueles calões que manda o bom senso não escrever. Infelizmente, não sabeis falar de outra maneira.

– Vai sair daí uma bela obra!…

– E o que vais contar nesse tal livro?

– Vou narrar as nossas aventuras na Guiné-Bissau.

– Não me digas que vais escrever aquela…

– Não, Cascais! Fica tranquilo que não vou contar isso. Mas vou contar a história da coroa de flores; a história da frase «estamos a caminho do progresso». A forma como destruímos as prendas das senhoras do Movimento Nacional Feminino, o nosso encalhe no Cacine, a operação ao rabo do Palmela… Sei lá! Vou contar tudo o que resistir nas minhas memórias.

– Ainda bem que não é o meu verdadeiro nome que vai lá estar, senão se alguém chegar a ler esse livro, há-de julgar-me maluco. Mas não contes mais do que essas. E coisas da guerra?

– Coisas da guerra? Só as que forem mesmo necessárias. Não gosto de falar de guerra!

– É claro que vais aldrabar…

– Vou escrever um romance baseado na nossa realidade.  Mas, ainda assim, um romance. E nos romances é pressuposto a ação ser ficção pura mesmo que se apoie nas experiências do autor.  Quero escrever um romance e não uma crónica sobre a nossa comissão aqui, nesta terra ardente. Assim, terei mais liberdade para contar a nossa história no tempo que estamos a passar aqui. Tentarei criar um estilo fluido e valorizar alguma das nossas aventuras porque acho que bem o merecemos. Querem mesmo saber como vai ser? É assim: o livro vai girar à minha volta e vós sereis os meus companheiros de aventuras quando a narrativa lá chegar. Como vos conheci, por causa da doença do Primo…

– Do Primo? Quem é esse?

– É um nome que inventei agora mesmo para o verdadeiro telegrafista da lancha, um amigo meu que foi evacuado para a Metrópole porque apanhou tuberculose e que eu vim substituir. Já não é do teu tempo, Palmela.

– Primo?!... Esse nome está mesmo bem visto!

Está adequado, não está, Serra? Também tenho aqui um poema que gostava de introduzir…

– Já estranhava. Sempre a mania dos versos!…

– Este é um poema muito bom. Saiu no Voz da Guiné. Só não sei onde o colocar…

– Que poema é? Não queres ler para a gente poder ouvir?

– Leio, se tiverem paciência. Foi escrito por uma tal Maria de Fátima Djau Barbosa, de Bafatá…

– Não me digas que é a Maria Turra?!

– Sei lá se é a Maria Turra! Vocês são de mais! Ontem era a «filha da puta da Maria Turra», hoje admitem que a senhora pode ser poeta… Deus!, dá-me entendimento para perceber estes gajos!

– Eu não disse que ela era poeta ou lá o que é isso!

– Não disseste mas assumiste que podia ser…

– Assumi o quê? Nada disso! Se quiseres, podes ler o raio do poema, se não quiseres, não leias. Não me chateies mais com isso.

– Deram-me uma grande ideia. Se eu escrever uma introdução a relatar esta conversa, talvez possa transcrever o poema. Deixem-me pensar…


*



– Como disseste que se chamava o poeta? Cheira-me que essa gaja é preta …

– Não sei se é preta!… o poeta chama-se Manuel Alegre!

– E quem é esse tipo?

– Só lhe conheço alguns poemas e muito superficialmente: Trova do Amor Lusíada, Romance de Pedro Soldado e Canto da Nossa Tristeza. Esta Maria de Fátima, apesar de ser guineense, deve conhecê-lo melhor que eu. Vou ter de estudar melhor o Manuel Alegre. Se ela fez dele um amigo, porque não hei-de eu fazer dele também um amigo. Diz aqui, no jornal, que o pai dela apresentou-o na antiga redacção e disseram-lhe que nunca publicariam aquilo. Vejam bem a volta que isto deu. Depois do golpe de Estado, publicaram-no mesmo…

– Essa coisa de poesia não me entusiasma muito…

– É muito bonito, Palmela. É por isso que eu quero que conste no nosso livro.



*



Naquele momento uma estrela cadente, veloz, riscou o céu. Atrás dela, o nosso olhar seguiu o mesmo traço.

– Olha! Vamos ter mais sete anos de vida…

Se todos iríamos ter mais sete anos de vida, eu queria ter ainda muitas vezes sete. E ao longo dos anos, sempre que me cruzei com esse asteróide flamejante, ele não me contou dos anos mas recordou-me da promessa feita, naquela noite, numa bela e morna praia de Bubaque. Não foi em 2000 mas em 2010 que, finalmente, o livro pediu para ser escrito. E, num destes dias, quando remexia o baú das minhas lembranças, lá estava, entre cartas e aerogramas o papelinho com estas anotações e um velho jornal que o rolar inexorável dos anos foi amarelecendo.

Desse tempo, aqui deixo o meu relato.

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